Brasil

2018, o ano que quebrou paradigmas, por Merval Pereira

08 de novembro de 2018

Virando a página

Por Merval Pereira (O Globo)

O primeiro a sacar que o ano de 1968 terminou no Brasil no seu cinqüentenário foi Elio Gaspari. “(…) Nesta, (eleição) derrubou peças de dominó. (…) Talvez o ano de 1968 tenha terminado no Brasil durante seu cinquentenário. (A bandeira “Seja Marginal, Seja herói”, de Hélio Oiticica, é de 68.)”.

Na seqüência, o economista Carlos Ivan Simonsen Leal, presidente da Fundação Getulio Vargas, em palestra na Brazilian-American Chamber of Commerce, em Nova York, disse que o novo governo eleito representa uma ruptura com a mentalidade que direita e esquerda sustentavam até então, com origens em 1968.

“Há uma esquerda e uma direita que pensam que nós estamos em 1968, que o melhor negócio do mundo é uma siderúrgica. E não é a siderúrgica. O lucro anual da Google compra uma siderúrgica”, diz. “Por que não somos capazes de fazer um Google? Inovação, mercado de capitais e insuficiência de crédito”.

Zuenir Ventura, autor do icônico livro “1968, o ano que não terminou”, lembra que os estudantes de 1968 queriam fazer uma revolução política, para mudar o mundo, e conseguiram sem querer fazer uma fundamental revolução dos costumes. Saíram daí movimentos sociais como o feminismo, o orgulho gay, o poder dos negros.

Mas a disputa direita-esquerda continuou a existir, e no Brasil, depois da ditadura militar, passou a ser feita pelo voto popular, um tanto anacronicamente como ressalta Simonsem, cuidando do social de maneira superficial, descuidando do crescimento econômico que possibilitaria superar as enormes desigualdades sociais.

No meio da disputa entre PT e PSDB, que dominou os últimos 25 anos da política brasileira, participava o PMDB que, mesmo sem disputar uma eleição presidencial  é o partido mais assíduo no governo federal desde a redemocratização do país. Teve ministérios em todas as gestões, entre os mandatos de José Sarney e Dilma. Mas até isso acabou com o tsunami que devastou os velhos caciques da política brasileira.

Um dos mais emblemáticos, Romero Jucá, que foi líder de todos os governos desde a redemocratização, hoje, presidindo o partido, mas sem mandato a partir do ano que vem, admite que acabou o modelo do MDB, classificado por ele eufemisticamente de “partido da governabilidade”.

Completando essa sucessão de fatos relacionados direta ou indiretamente a 1968, o presidente eleito Bolsonaro disse recentemente que gostaria de um Brasil como era há 50 anos. Não ficou claro se ele estava com saudades do AI-5, decretado no final daquele ano, ou se revelava apenas a nostalgia de uma época que lhe parece de prosperidade.

A revolução tecnológica que manda no mundo hoje passa longe do Brasil como protagonista, e Carlos Ivan Simonsen tem razão ao ressaltar que o país tem que ganhar produtividade com os avanços tecnológicos, que precisam ser estimulados pelo novo governo.

De fato, o salto que é possível dar ao entrar na nova revolução tecnológica é enorme, fazendo os países queimar etapas. Em 2002, quando visitei a China pela primeira vez, os comerciantes ainda nem sabiam usar as máquinas de cartão de crédito. Hoje, o dinheiro em papel está praticamente abolido, só se fazem pagamentos por meios eletrônicos.

Em 1998, os gigantes tecnológicos como Amazon e Apple nem faziam parte das maiores empresas dos Estados Unidos. Desde 1955, quando o ranking das maiores foi publicado pela primeira vez pela revista Fortune, apenas três empresas se mantêm entre as maiores: a General Motors, a Exxon Mobil e o Walmart.  Mas a Apple e a Amazon têm valor de mercado maior.

Em 2008, quando Obama foi eleito presidente nos Estados Unidos muito devido às ações da internet, mal havia o twitter e nem se sabia que o whattsApp existiria. Hoje, esses e outros novos meios de comunicação dominam as campanhas eleitorais, e permitem que um candidato do baixo clero político, sem estrutura partidária e sem dinheiro, ganhe a eleição.

É claro que não são os meios de comunicação que derrubam ou consagram um candidato. Geraldo Alckmin teve o maior tempo de televisão da propaganda eleitoral e terminou a campanha com míseros 5%. O PT, que tinha também muito tempo de propaganda eleitoral gratuita, usou bem a televisão e seu candidato foi ao segundo turno.