Opinião

Os dividendos eleitorais do ataque a Bolsonaro, por Bernardo Mello Franco

09 de setembro de 2018

Os dividendos eleitorais do ataque a Bolsonaro

POR BERNARDO MELLO FRANCO, de O Globo

Bolsonaro faz gesto de atirar no hospital

Madrugada de sexta-feira, entrada da Santa Casa de Juiz de Fora. Cercado de câmeras e microfones, o deputado Flávio Bolsonaro é questionado sobre o estado de saúde do pai. Ele responde em cinco segundos e emenda uma mensagem política: “Vocês acabaram de eleger o presidente. Vai ser no primeiro turno”.

Passado o susto, a campanha do PSL parece viver um momento de euforia. O atentado a Jair Bolsonaro abriu uma nova fase na corrida ao Planalto. No cálculo frio da política, já ficou claro que o ataque renderá dividendos eleitorais ao capitão.

O presidenciável era criticado por abusar de gestos agressivos e declarações irresponsáveis, como “invadiu, é chumbo” e “vamos fuzilar a petralhada”. Agora o candidato que prega a violência virou vítima da violência. Na hipótese mais conservadora, a metamorfose tende a reduzir seu índice de rejeição.

Bolsonaro também ganhou uma trégua dos adversários. Os comerciais que desgastavam sua imagem já sumiram do ar. Os marqueteiros não tiveram escolha. Atacar um candidato hospitalizado significaria desferir uma facada na própria campanha.

O atentado ainda resolve outro problema do capitão. Filiado a uma sigla nanica, Bolsonaro surfava nas redes sociais, mas sofria com a subexposição na TV. Tinha direito a uma pequena fração da propaganda obrigatória, além do registro de sua agenda nos telejornais. Desde quinta-feira, ele domina o noticiário. Seus oito segundos se multiplicaram em horas de cobertura jornalística.

Embora tudo indique que o agressor é um desequilibrado que pensava agir por ordem divina, os bolsonaristas não se constrangeram em dar tom político ao episódio. “Eu não acho, eu tenho certeza: o autor do atentado é do PT”, acusou o vice Hamilton Mourão, sem apresentar qualquer prova. “Se querem usar a violência, os profissionais da violência somos nós”, emendou o general.

O pastor Silas Malafaia, veterano em baixarias eleitorais, divulgou boatos na mesma linha. “O criminoso que tentou matar Bolsonaro é militante do PT e assessora a campanha de Dilma ao Senado”, afirmou. Dupla mentira: o criminoso esteve filiado a outra sigla, o PSOL, que também não tem responsabilidade pela agressão.

O atentado aumenta a tensão de uma campanha que já estava radicalizada. Os rivais de Bolsonaro reagiram no tom adequado, solidarizando-se com a vítima e condenando a violência. Ele ensaiou moderar o discurso, mas emite sinais contraditórios. Ontem posou no hospital fazendo o gesto de atirar.

Enquanto se recupera, o capitão deve ser representado pelos filhos e pelo general Mourão. Na noite de sexta, o vice mostrou que está alinhado com o companheiro de chapa. Em entrevista à GloboNews, ele chamou um torturador da ditadura de “herói” e admitiu a hipótese de um golpe militar em caso de “anarquia generalizada”. O oficial mencionou a figura do “autogolpe”, expediente usado por presidentes autoritários em repúblicas bananeiras.

Que ninguém se engane: depois do atentado, o bolsonarismo continuará a ser o que já era. Só que com mais chances de chegar ao poder.