Opinião

Ricardo, João e o tempo, por Ivandro Oliveira

30 de dezembro de 2018

O jornalista Ivandro Oliveira, no último artigo de opinião para o Tá na Área antes de suas merecidas férias, comenta a relação inicial firmada entre Ricardo Coutinho e João Azevedo a partir do anúncio dos nomes do governo que se inicia daqui a dois dias, e destaca o tempo como fator primordial para a relação entre ambos.

Confira:

Ricardo, João e o tempo

Por Ivandro Oliveira

 

De saída da Granja Santana para ceder o conforto dos aposentos oficiais e a cadeira principal do Palácio da Redenção, Ricardo Vieira Coutinho sabe que a partir do dia 1º de janeiro a órbita do poder deixará de gravitar em torno de si mesmo para deslocar-se às mãos do novo dono da caneta, o seu ex-auxiliar João Azevedo, cujo discurso e prática, pelo menos até aqui, é de continuidade administrativa com a manutenção de mais de 90% da equipe de seu antecessor.

A julgar pelos nomes anunciados e que devem ser reempossados em janeiro de 2019, João Azevedo ratifica a posição de dependência tantas vezes reafirmada no curso da última campanha eleitoral e, ao mesmo tempo, passa para opinião pública a imagem de que poderá ser uma espécie de Secretário no exercício temporal do governo, algo inédito numa Paraíba que já viu de tudo e mais um pouco. E é justamente aí que reside o perigo.

Em 2010, ao deixar a prefeitura de João Pessoa para ser candidato a governador, Ricardo Coutinho impôs ao saudoso Luciano Agra algo parecido. Para se ter uma ideia, naquele ano, Agra, então prefeito da Capital, chegou a ficar vários meses sem conceder uma entrevista sequer enquanto prefeito da Capital, justamente para que a lembrança do nome de Coutinho continuasse viva na mente dos pessoenses, estratégia que perdurou até a consagração do líder girassol nas urnas daquele ano.

Tempos depois, Agra foi tomando as rédeas da administração e no momento mais crítico, quando praticamente foi alijado da própria sucessão pelo próprio Coutinho, já no Palácio da Redenção, foi estimulado a dar um grito de resistência pelos fiéis escudeiros Nonato Bandeira e Ronaldo Guerra, então secretários do Gabinete do Prefeito e de Infraestrutura, respectivamente. Coincidência ou não, Nonato e Guerra formam o que poderia se nominar de auxiliares da cota personalíssima de Azevedo, que sucede Coutinho no governo.

Resta saber se a história tornará a se repetir no futuro ou tudo pode ser mera verossimilhança. O comportamento do próprio Ricardo, já na condição de ex-governador, e de João Azevedo, acima de tudo, devem ser decisivos para o desenlace de um enredo que está apenas começando.

À João Azevedo caberá o papel de fazer-se protagonista da história, não só pelo cargo que ocupa a partir de agora, mas, especialmente, pelo fato de ser o maior beneficiário pelos ônus e bônus que angariar ao longo dos próximos 4 anos, daí a necessidade mais que premente de se impor como condutor do governo e de todo o processo, sem eventuais amarras de quem quer que seja. Neste sentido, caberá ao próprio estabelecer ordens e limites aos agora seus auxiliares.

Por sua vez, Ricardo Coutinho, na condição de ex-governador, até poderá ser uma espécie de consultor eventual de ‘luxo’, até pelo fato de ter sido o principal fiador da eleição de Azevedo, todavia terá que se despir dos arroubos contumazes de quero, posso e mando, em vista da preservação da própria unidade do grupo político que lidera, evitando cismas e possíveis rachas, pelo bem, inclusive, do seu futuro político, bastante comprometido pela inexistência de um mandato e dos seus consequentes louros.

Com a palavra, o tempo…